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Estudo revela engrenagem genética que define identidade e função de neurônios da memória em moscas
Publicado na eLife, o estudo descreve uma rede genética hierárquica que coordena quando e como neurônios do corpo pedunculado — estrutura ligada a aprendizado e sono — adquirem funções específicas.
Por Laercio Damasceno - 28/02/2026


Padrões de expressão dos principais marcadores do tipo de célula de Kenyon (KC). ( A–H ) Marcadores GFP específicos do tipo KC (verde) foram contracorados com Trio (magenta) para revelar padrões de expressão nos estágios larval errante (LE) ( A , C , E , G ) e adulto ( B , D , F , H ). ( A, B ) Ab-GFP foi expresso principalmente nos corpos celulares dos neurônios ?, tanto no estágio LE quanto no adulto. O sinal de Trio indica a localização dos neurônios ? para coloração observada apenas no citosol (setas) e dos neurônios a?/B? para coloração em toda a célula (pontas de seta). ( C, D )...


Uma equipe do Institute of Cellular and Organismic Biology, em Academia Sinica (Taiwan), identificou um fator de transcrição central na definição da identidade de um subtipo de neurônio envolvido em memória e comportamento na mosca-da-fruta. Publicado na eLife, o estudo descreve uma rede genética hierárquica que coordena quando e como neurônios do corpo pedunculado — estrutura ligada a aprendizado e sono — adquirem funções específicas.

O trabalho, liderado por Hung-Hsiang Yu e tendo Pei-Chi Chung como primeira autora, mostra que a proteína Eip93F (também chamada E93), induzida por ecdisteroide e portadora de domínio Pipsqueak, atua como determinante-chave da identidade dos neurônios a/B, o subtipo gerado mais tardiamente entre as chamadas células de Kenyon.

“Nosso estudo demonstra que E93 não apenas ativa genes característicos dos neurônios a/B, mas também reprime programas genéticos de subtipos mais precoces”, afirmou Yu, em comunicado da instituição. “Isso estabelece uma lógica molecular clara para a diversificação neuronal no cérebro em desenvolvimento.”

Uma identidade construída no tempo

No cérebro da Drosophila melanogaster, cerca de 2 mil células de Kenyon formam a base do corpo pedunculado (mushroom body), organizadas em três subtipos gerados sequencialmente: ?, a?/B? e a/B. Estudos anteriores haviam mostrado que fatores da família BTB-zinc finger — como Chinmo e Mamo — eram essenciais para especificar os subtipos iniciais. Faltava, porém, identificar o regulador que definia o destino tardio a/B.

Ao cruzar bancos de dados de RNA-seq com linhagens transgênicas marcadas por GFP, os pesquisadores observaram que E93 é preferencialmente expresso em neurônios a/B adultos. Quando o gene foi inativado por mutação ou RNA de interferência, marcadores típicos de a/B — incluindo o canal de cálcio Ca-a1T — diminuíram drasticamente. Em contrapartida, neurônios que deveriam ser a/B passaram a expressar marcadores característicos de neurônios ?, indicando uma mudança de identidade celular.

“Não se trata apenas de perder uma característica”, disse Chung. “Os neurônios realmente passam a adotar traços moleculares de um subtipo anterior.”


Da identidade molecular ao comportamento

O impacto foi além da morfologia. O gene Ca-a1T codifica uma subunidade de canal de cálcio do tipo T, previamente associado à regulação do sono. Quando E93 ou Ca-a1T foram silenciados especificamente em neurônios a/B, as moscas apresentaram alterações no padrão de atividade noturna: a redução da velocidade de locomoção ocorreu muito mais cedo durante o período escuro, em comparação com controles.

Além disso, as moscas com deficiência de Ca-a1T exploraram menos a região com alimento durante o dia, sugerindo alterações em comportamentos de forrageamento. “Esses resultados conectam diretamente a especificação da identidade neuronal à aquisição de funções comportamentais específicas”, afirmou Yu.

Uma rede genética com freios e contrapesos

O estudo propõe que E93 integra uma rede hierárquica com chinmo, mamo e abrupt (ab). Chinmo e Mamo, expressos em neurônios mais precoces, reprimem E93, impedindo que células ? adquiram identidade a/B. Quando essa repressão falha, E93 é ativado prematuramente e redireciona o destino celular. Por outro lado, a superexpressão de Ab bloqueia E93 e Ca-a1T, reforçando a identidade ?.

Os autores sugerem que essa arquitetura genética, com circuitos de retroalimentação, garante que cada subtipo neuronal surja na ordem correta e com funções apropriadas — um princípio que ecoa mecanismos descritos em outros sistemas nervosos, inclusive de vertebrados.

Embora o trabalho tenha sido conduzido em insetos, os pesquisadores destacam que E93 e fatores BTB apresentam conservação evolutiva entre artrópodes, levantando a possibilidade de que estratégias semelhantes de diversificação temporal possam operar em outros organismos.

“Compreender como neurônios adquirem identidades distintas é fundamental para desvendar como circuitos complexos são montados”, disse Yu. “Este é um passo para conectar desenvolvimento, identidade celular e comportamento.”

O estudo foi publicado em 27 de fevereiro de 2026 na revista eLife.


Referência
Pei Chi Chung, Kai-Yuan Ku,São-Yu Chu, Chen Chen, Hung-Hsiang Yu (2026). Rede genética que molda a identidade e a função das células de Kenyon nos corpos de cogumelo da Drosophila. eLife 14 :RP108173.

 

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